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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Afeição

 
Eu poderia descrever você das formas como eu imagino, lidando apenas com as luzes fracas da sala de estar, a sua sombra tomando conta do sofá, seus olhos observando sobre o óculos aquilo que se enxerga somente a olho nu. Eu taparia toda a minha privacidade se soubesse que com esses mesmos olhos voce me diria tanta coisa. Eu me deixei ser traduzida, suas mãos que bem levemente iam lendo por entrelinhas as alegrias e desesperos da minha vida, tatuadas na pele, com a mesma firmeza que prendo o ar pra não deixar escapar nada. Ah se eu soubesse que me levaria tão bem nas palmas das mãos teria sido mais firme, grudaria os pés no chão, as mãos na parede, pra que não me arrastasse assim pro seu lado. Eu teria acendido as luzes, posto a mão nos seus olhos só pra não me perder dentro deles, pra não cair nesses poços sem fim, que sugam as incertezas do meu coração e levam pra sabe-se lá onde. Eu poderia descrever você como um simples cara que conheci, mais um homem na minha vida, mais um corpo que me sustentasse as mágoas, mais um sorriso que me abrisse as portas, mais um abraço que me escondesse. Estou acostumada com a sua mão segurando a minha, um encaixe, que se tivesse sido combinado teria dado errado. Eu poderia fingir que não ligo a mínima quando liga pra mim e que me deixa louca só de imaginar você sorrindo, eu poderia muito bem te dizer pra calar essa boca, só pra que eu não escutasse a sua voz bem pertinho de mim e sentisse esse arrepio que começa e não acaba nunca. E eu te faria acreditar que no teu abraço ainda sou a mesma. Já não sou mais. Eu posso muito bem te dizer que quando você tá do meu lado tudo fica normal, eu posso te convencer que quando você tá perto o meu coração não bate mais rápido. Poderia muito bem, sim, eu poderia muito bem te deixar de lado, e sobreviver sem as formas como eu te imagino.

Marcella Casari

quarta-feira, 4 de novembro de 2009




Dou risada de nervosa, só do corpo dele estar a centímetros do meu, eu reparo nas mãos, na camiseta que ele está usando, no tênis, na calça, no zíper da calça, no cabelo, nos óculos, nas unhas, nos pelos da nuca, na barba ou na falta dela, no bico que ele faz quando fala, nos dentes quando ele sorri. Porque assim eu sorrio sem parar, pareço quadro, o rosto fica imóvel, e ele nem percebe, que perto dele, eu fico extasiada, nervosa, sou outra mulher, a dele, e ele nem sabe que me disse “xis” pra que eu não parasse mais de estar ali, sorrindo o meu sorriso amante.

Marcella Casari

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sinto muito

É uma saudade que não tem nome, nem forma, nem cor, nem cheiro. Saudade que impreguina na roupa, no cabelo, na mão. Que escorre pelo rosto, que palpita no peito e enche o pulmão. É uma saudade que machuca os olhos, morde os lábios e arranha a pele. Que inunda o corpo, deixa frio, deixa quente, azedo, doce, salgado, sem gosto, vazio, cheio. Saudade que mexe por dentro incomoda por fora, suspira.



Marcella Casari

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Isso sim é uma metáfora

Deixei que me conduzisse muito bem. Com as minhas mãos apoidadas nas suas, só pra que eu ainda seguisse em linha reta. Deixei depois que soltasse delas, pra que o mesmo caminho fosse alcançado da maneira certa.



Marcella Casari

Uma história

(...) Eu tinha uma história pra contar. E com ela eu resumiria minha saga, minhas chagas e inxaços pela pele. Revelar-te-ia, o último sorriso que dei semana passada, e o suspiro que dei segundos atrás, com essa história, você saberia metade das minhas verdades, e o inteiro das minhas mentiras mais sujas, imundas e totalmente convidativas. Quem sabe você se enojasse de mim, quem sabe me amasse um segundo a mais.




Marcella Casari